Os Sonhos como Instrumento Psicoterapêutico: orquestrando mosaicos de si…

    Diante de traumas podemos perder o contato com a confiança na nossa própria natureza, que tende sempre a seguir a vida e a autorregulação, e ceder a um padrão de medo e encolhimento, que é o fundo de toda patologia. Os sonhos nos levam para o fundo do nosso insconsciente e através dele temos uma incrível ferramenta para auxiliar o processo de aprofundamento da análise corporal, buscando mais vivência e menos teoria.

    Nosso modelo dominante de perceção materialista nos deixou mais distantes do universo dos afetos, sentimentos e plantou um medo de abrir nossa perceção para o espiritual, invisível, inconsciente. Nesse contexto percebo na clínica corpos marcados e prejudicados, como o pescoço, que liga cabeça ao tronco. Na contemporaneidade este tornou se vítima de enormes tensões musculares, doloridas e intensas. O pescoço, sede do narciscismo e da comunicação, assumiu uma função de interditar a ponte que conecta a cabeça e o intelecto ao coração e à afetividade e ao resto do corpo. Ficamos mais fragmentados e reprimidos, como nossa cultura. Os bloqueios energéticos que causam os sintomas das patologias e transtornos são mantidos através de posturas físicas e mantém certas atitudes na vida. Tais atitudes também são posturas corporais, refletindo um no outro.

“Assim como os oráculos na antiguidade, os pajés das nossas tribos ou os chamados “apanhadores de sonhos” de algumas comunidades primitivas, também os psicólogos, podem ajudar aqueles que querem se tornar bons sonhadores. Independentemente das diferentes teorias, os sonhos continuam sendo fundamentais para a ampliação da consciência e novas percepções da realidade.” (Melo, p. 16)

    O sonho é algo da mais alta ordem, articula memórias complexas na forma de enredos oníricos. São verdadeiras simulações do ambiente e do sonhador. A viagem ao inconsciente é do paciente, o trajeto é dele. Eu, como psicoterapeuta o acompanho nesse processo e busco seus sonhos para aprofundar e acelerar o processo terapêutico e a desmontar as defesas do caráter, buscando elaboração, integração e o reajuste de novos mecanismos de defesa para mais saudáveis e menos neuróticos.

    Situações infantis e traumáticas deixam as marcas no corpo na forma de tensões crônicas. O conteúdo dos sonhos são uma tentativa do organismo de elaborar o conflito e, dessa forma, promover dissolução do bloqueio que impede a passagem de energia. Muitas vezes os sonhos promovem sensações agradáveis e de relaxamento, e em outras vezes sobrevêm a ansiedade e o que chamamos de pesadelo, com sensações desagradáveis.

    Um corpo saudável se expressa, e é capaz de integrar suas emoções, pensamentos e ações, expressando seus valores mais profundos. Aprender a sonhar é um caminho ara autoconhecimento, perceção de si, acesso ao próprio potencial criativo e catalisar um poder de autocura inerente a todos os seres vivos. A medida que avança o “Eu” vai se fortalecendo, aparecem novos conteúdos imagéticos.

    Maria de Melo em “Os Sonhos em Vegetoterapia” nos fala que o sonho nos revela um “mapa” da situação energética e dos bloqueios do sonhador, um grande mosaico. Cabe a psicoterapia catar as dicas fornecidas pelos sonhos, traduzi-las em linguagem acessível e interpreta-las, trazendo o máximo de aproveitamento desse recurso natural do ser humano. Encontra-se portanto as saídas, análises e sínteses criativas do inconsciente e toda a personalidade.

     Já no nível corporal muitas vezes ocorrem drásticas transformações do indivíduo, tais como mudança no tônus muscular, dissolução de tais tensões físicas e sintomas que incomodam, alterações na coloração da pele, temperatura do organismo, na disposição, e etc. Tais mudanças favorecem uma mudança de postura corporal como um todo, portanto também na vida e suas possibilidades.

    Para o neurologista Sidarta Ribeiro Sonhar aumentou a flexibilidade comportamental e provavelmente aumentou a radiação dos mamíferos em todo o planeta. A interpretação e comunicação de um para o outro sobre os sonhos é uma “fonte tradicional de coesão de grupo, criatividade e conselho em face de um mundo hostil.”

     A Psicoterapia Reichiana abre novas possibilidades de integração da personalidade quando trabalha ativamente em desbloquear a energia nos vários níveis do corpo, diminuindo as respostas estereotipadas, abrindo caminho para um novo. Novas posturas geram novos sonhos e podem facilitar uma transformação a nível emocional, mental e físico. “O arco de possibilidades de um sonho é absolutamente vasto, muitas vezes alcançando o incomum, o irreal e o caótico” (Ribeiro). E se as pessoas não sonham, não enxergam o futuro!

 

Bibliografia:

“O Oráculo da Noite: a história e a ciência do sonho” (Sidarta Ribeiro)

“A Coragem de Crescer: sonhos histórias para novos caminhos” (Maria de Melo)

“A Metodologia da Vegetoterapia Caracteroanalítica” (Federico Navarro)