Podemos vivenciar alguns tipos de traumas como os de desenvolvimento (ao longo do tempo) ou uma situação aguda de impacto único. Trauma é um evento que irrompe nossas barreiras de defesa. Algo estressante ou um conflito que nos separa de nós mesmos, dissociando corpo e mente para não sentir a dor. Quando vivemos um dano complexo podemos desenvolver marcas difíceis de apagar, como exemplo temos as vítimas de violência sexual e os soldados de guerra que desenvolvem Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT).
Segundo Wilhelm Reich somos regidos por uma pulsão vital, sempre em busca de regulação do Sistema Nervoso Central, na direção da vida e da segurança corporal para seguir no mundo. Quando não ocorre o acolhimento necessário na primeira infância ou numa situação estressante podemos perceber o mundo como mau e ativar as defesas do organismo, que formam nossas couraças e bloqueios energéticos.
Vivenciar traumas pode acionar as respostas de luta e fuga do organismo, levando a sintomas como inquietação, tensões, flashbacks, ansiedade, angústias, pensamentos obsessivos, comportamentos compulsivos, sensação de urgência constante, medo, agressividade não natural, exaustão, entre outros. O corpo sempre em alerta e hipervigilância, vivenciando estado de não relaxamento. Por outro lado, traumas podem ativar o sistema de congelamento e paralisia no ser humano que sofre, trazendo sensações de inatividade, entorpecimento, apatia e desconexão dos sentimentos e do corpo, como um animal que para sobreviver a ser presa pega utiliza do recurso de se fingir de morto para não sentir as dores.
A partir de estudos de autores como o Psiquiatra Gabor Maté e tricotando experiências na prática da área clínica compreendo que as crises e sintomas decorrentes de experiências traumáticas são como uma resposta a situação estressante e uma tentativa de resolução do conflito e de lidar com a dor. As dores internas e externas e o medo profundo causados pelo trauma são a causa do sofrimento e se não tratadas podem se esconder, até que vazem pelo corpo em forma de sintomas, crises e somatizações corporais. Se há questões mal resolvidas o indivíduo geralmente pode adquirir hábitos nocivos para si mesmo na tentativa de lidar com a dor, como por exemplo as adicções como: abuso de drogas, remédios, comida, consumo, dinheiro, sexo, jogos, poder etc.
Nossa sociedade é dopaminérgica e também deprimida e no fundo traumatizada e traumatizada, geralmente trata somente focando nos abusos de substâncias ao invés de olhar para a causa, o trauma inicial. Um eterno trabalho de “enxugar gelo”, ao invés de lidarmos e olharmos para as dificuldades do passado que ainda se fazem presente. Seja na forma de pensamentos invasivos ou pelo corpo através de sintomas como gastrites, enxaquecas, fibromialgia, tensões musculares crônicas, sentimentos de vazio etc.
Por isso faz sentido falar em Redução de Danos, que é a Política Nacional de Saúde Pública e Direitos Humanos atual, focada em minimizar os impactos negativos do uso de substâncias, sem exigir a abstinência imediata. Não se deve punir a dor do outro e sim auxilia-lo a criar recursos e estratégias de resiliência.
Segundo o Psicanalista Ferenczi o problema não é o trauma em si, mas o que fazem do ocorrido. É necessário reconhecimento da experiência que foi vivenciada como traumática. Acolhimento, contorno e compartilhamento são formas de olhar para o passado que ainda se faz presente na mente e no corpo, por isso a importância da psicoterapia e redes de apoio e escuta. Desmentido é quando ignoram o ocorrido, não validam, admitem ou se afirma que o trauma não aconteceu ou não foi verdadeiro para aquela pessoa, o que pode gerar o que chamamos de “revitimização”. Ocorre inclusive quando uma pessoa busca tratamento e não se sente ouvida, não é encaminhada e não tem sua versão levada em consideração.
Perguntas essenciais para poder intervir:
- Quem comunicou o trauma?
- Com quem gostaria de ter compartilhado?
- Foi acolhido se contou?
- Como reagiram a situação abusiva/traumática/estressante?
Fundamental distinguir se foi vivido sentimentos de abandono e desamparo ou de acolhimento e reparação. Assim como se há negligência ou validação e reconhecimento do vivido. Luto por uma psicologia que evite revitimizações e desmentidos, atuando na prevenção de neuroses numa sociedade tão já machucada. Nunca naturalizar violências.
Não se isole, busque ombros amigos, ouvidos implicados e redeS de apoio!

