As pistas estão em muitos lugares, sejam nos sonhos, nas histórias e no contexto de vida, nas etapas do desenvolvimento psico afetivo, ou um olhar de passagem pelos sintomas, pensamentos, sentires desse ser vivente. O corpo guarda as memórias, os afetos e seguimos uma evolução do tempo, logo faz sentido retroceder os ponteiros do relógio biológico para revisitar esses estágio e fases da vida.
Muita água parada dá bicho, se não deixar sair vira poço. Remexendo as emoções parto de questionamentos diante dos pacientes que envolvem perceber sua semiologia corporal. Uma espécie de guia flexível para a abordagem do psicoterapeuta, que explora a origem dos traços de personalidade gravados, os localizando no tempo e no corpo e mostrando as conexões entre os sintomas e a história da pessoa, visando sempre a criação de estratégias e recursos na vida em direção a resiliência:
“Quantos olhos ja não vêem, estão vazios, distantes, em outros lugares, e quantos estão atônitos, espantados e aterrorizados pelo pânico?
Quantas bocas são cheias de raiva, quantas são doces e persuasivas?
Quantas palavras permanecem não ditas por trás dos lábios selados? E quantas não chegam ao coração e ficam paradas no peito, ou mais acima, na garganta?
Quantas palavras são engolidas pelo medo de ser autêntico ou para não se mostrar numa posição inferior?
Quantos masseteres hipertônicos e quanto choro reprimido se esconde embaixo dessas tensões?
Quantos pescoços estão esticados no desafio de atingir uma altura maior?
Quantos pescoços estão aprisionados na posição narcisista de Si? E quantos ficam numa atitude esnobe inclinados para trás e de narizes em pé?
Quantos são tão rígidos a ponto de separar a cabeça e o coração, o saber e o sentir, o sentimento e a razão, a superfície e a profundidade?
Quantas coleiras superegóicas estão no pescoço?
Quantos pescoços estão dobrados em adesão ao projeto do Outro?
E outros pescoços que estão afundados entre os ombros por causa da ameaça de castração?
Quanto choro há na opressão de um tórax e quanto desejo de afeto na falta de abraços, os quais não foram dados?
Quantos ombros são curvados por cargas insustentáveis e quanta agressividade está presa nas omoplatas?
Quanta falta de ar na insustentabilidade e quanta apneia para não sentir?
Quantos tórax em posição inspiratório e ansiosa?
Quantos tórax em posição expiratório e deprimida?
Quanta força há no peito para enfrentar a realidade das coisas e quanta angústia há na sua dor?
Quanta força há nas mãos quentes e quanta fragilidade nas mãos frias para pegar, para dar, para acariciar, para sustentar, para cuidar, para criar e para abraçar?
Quantos nãos permanecem no estômago sem serem expressos?
Quanta luz há na leveza diafragmática da pessoa apaixonada?
Quanta angústia de separação existe na área umbilical?
Quanto pânico na barriga por causa de uma ameaça profunda?
Quanto furor no ventre por causa de uma antiga rejeição-exclusão em uma relação objetal primária?
Quanta angústia de castração na pélvis e quanta potência nos genitais apaixonados?
Quantas pernas estão paralisadas pelo medo e quantas outras estão agilíssimas, pronta para fugir?”
Livro: “Caráter e Psicopatologia: A Psicanálise no corpo e o corpo na Psicanálise. A Análise Reichiana Contemporânea” (Genovino Ferri e Ghiuseppe Cimini)

